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quinta-feira, 5 de agosto de 2010

QUANDO OLHO PARA MIM...


Quando olho para mim não me percebo.
Tenho tanto a mania de sentir
que me extravio às vezes ao sair
das próprias sensações que eu recebo.

O ar que respiro, este licor que bebo,
pertencem ao meu modo de existir,
e eu nunca sei como hei de concluir
as sensações que a meu pesar concebo.

Nem nunca, propriamente reparei,
se na verdade sinto o que sinto. Eu
serei tal qual pareço a mim? Serei

tal qual me julgo verdadeiramente?
Mesmo ante as sensações sou um pouco ateu.
nem sei bem se sou eu quem em mim sente.

(Fernando Pessoa)





sábado, 17 de julho de 2010

Adolescência

"Quando eu tiver setenta anos
então vai acabar esta adolescência

vou largar da vida louca
e terminar minha livre docência

vou fazer o que meu pai quer
começar a vida com passo perfeito


vou fazer o que minha mãe deseja
aproveitar as oportunidades
de virar um pilar da sociedade
e terminar meu curso de direito


então ver tudo em sã consciência
quando acabar esta adolescência."
Paulo Leminski


Adoro!!!!

(as fotos são do que em geral é "coisa de adolescente... )

sexta-feira, 30 de abril de 2010

E é assim que acaba o mundo

"Nós somos os homens ocos
Os homens empalhados
Uns nos outros amparados
O elmo cheio de nada. Ai de nós!

"(...) Esta é a terra morta
Esta é a terra do cacto
Aqui as imagens de pedra
Estão eretas, aqui recebem elas
A súplica da mão de um morto
Sob o lampejo de uma estrela agonizante.

"(...) E é assim que acaba o mundo
E é assim que acaba o mundo
E é assim que acaba o mundo
Não com estrondo, mas com um suspiro.
("Os Homens Ocos", T. S. Eliot)


Apenas um poema, já que estou me sentindo melancólica.

domingo, 25 de abril de 2010

A noite dissolve os homens

A noite dissolve os homens
(Carlos Drummond de Andrade
Livro: "O Sentimento do Mundo")

"A noite desceu. Que noite! Já não enxergo meus irmãos.
E nem tão pouco os rumores que outrora me perturbavam.
A noite desceu. Nas casas, nas ruas onde se combate,
nos campos desfalecidos, a noite espalhou o medo e a total incompreensão.
A noite caiu. Tremenda, sem esperança...
Os suspiros acusam a presença negra que paralisa os guerreiros.

E o amor não abre caminho na noite.
A noite é mortal, completa, sem reticências,
a noite dissolve os homens, diz que é inútil sofrer,
a noite dissolve as pátrias, apagou os almirantes cintilantes!
nas suas fardas.

A noite anoiteceu tudo... O mundo não tem remédio...
Os suicidas tinham razão.

Aurora, entretanto eu te diviso, ainda tímida, inexperiente das luzes que vais ascender
e dos bens que repartirás com todos os homens.

Sob o úmido véu de raivas, queixas e humilhações,
adivinho-te que sobes, vapor róseo, expulsando a treva noturna.

O triste mundo fascista se decompõe ao contato de teus dedos,
teus dedos frios, que ainda se não modelaram mas que avançam
na escuridão como um sinal verde e peremptório.

Minha fadiga encontrará em ti o seu termo,
minha carne estremece na certeza de tua vinda.

O suor é um óleo suave, as mãos dos sobreviventes se enlaçam,
os corpos hirtos adquirem uma fluidez, uma inocência, um perdão
simples e macio...

Havemos de amanhecer.
O mundo se tinge com as tintas da antemanhã
e o sangue que escorre é doce, de tão necessário
para colorir tuas pálidas faces, aurora"

Entre tantos falsos Drummonds, que são interessantes, mas não tem a profundidade do poeta itabirense, lembrei-me deste, que li há alguns anos.
Este poema foi escrito em 1940, no auge da ocupação nazista, e quando Getúlio ainda apoiava o Eixo e os governos facistas de Hitler, Mussolini e Franco.
Nos dias em que vivemos, além de sangue, escorre limo, lama, pus. A noite de nossa época não é a guerra declarada, não é o autoritarismo escancarado. A noite é a desonestidade, a corrupção, a falta de escrúpulos, a impunidade, a violência cotidiana, rotineira, comum e sem limites.
A aurora?
Eu creio que ela há de chegar, pelos atos anônimos e despreendidos daqueles que não compactuam com a amoralidade e com a desonestidade.
Para cada ato de covardia, temos vários de bravura.
Para cada ato de corrupção, temos vários de probidade.
A aurora há de chegar e diluir essa noite tenebrosa.
O choro e o ranger de dentes, a raiva e a humilhação, são o pus que escorre dessa ferida fétida, e como o sangue que escorre, é necessário para colorir as pálidas faces do amanhecer.


Escrevi este texto há alguns anos, e compartilhei com alguns amigos, por e-mail e pelo orkut.

Foi uma resposta a certos textos que nos eram encaminhados, como de autoria de Drummond, de Shakespeare, de Luis Fernando Veríssimo, de Arnaldo Jabour (pra vermos como colocam todos no mesmo saco). Na verdade, não sou uma grande leitora de poesia, prefiro prosa. Mas alguns poemas são maravilhosos. Este, a noite dissolve os homens, descobri na oitava série, havia um excertozinho no livro didático de literatura, e eu procurei até achar o poema inteiro.

Então ele sempre está na minha memória, entre os meus favoritos.

P.S.:

Stalingrado foi uma das mais terríveis batalhas da 2ª Grande Guerra Mundial, tendo o cerco nazista custado as vidas de mais de 1.000.000 (um milhão de pessoas), entre soldados soviéticos e civis, habitantes da cidade.

P.P.S: Este é ano eleitoral.

Já começaram as campanhas difamatórias, os e-mails encaminhados, sem origem e sem assinatura, propagando inverdades ou meias-verdades.

Vai escorrer ainda muito pus, fétido, podre, dessa noite política que vivemos.

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Mas não perco (não perdi ainda...) a esperança na democracia, e no amadurecimento deste recém-nascido, que é o Estado Democrático de Direito brasileiro.