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quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Inesperado

Day 18: A book no one would expect you to love 

Um livro que ninguém imaginaria que eu amasse?

Hum... já me disseram que acham que eu leio de tudo. E eu leio. Sou até meio avestruz, ou cabra, sei lá, algo que engole tudo sem digerir. 
Mas acho que um livro que ninguém imaginaria que eu gosto é a Biblía.
Sério. Eu adoro as histórias bizarras do Antigo Testamento. Ainda mais com a edição da Barsa, que tem várias imagens de pintores, de várias épocas, retratando cenas bíblicas. Sempre me intrigava, como é que o povo no deserto usava aquelas roupas renascentistas... só mais velha fui entender, né? 


Minha favorita é a da escrava Agar, seu filho Ismael, herdeiro do patriarca Abrão, antes dele virar Abraão e engravidar a velha Sarah, e aí nasceu Isaac, que quase foi morto em sacrifício, ao deus Jeová, esse sacana.
Sara entregando Agar para Abrão... Menage biblico? 
 Imaginem: 
Aí aparece o anjo para a velha Sara, a mesma que já tinha dado a sua escrava jovem para o marido fazer um filho... 
- Sara, vc vai engravidar.
- Ah, fala sério... to velha, Gabriel, a fonte já secou...
E o anjo:
- Sua incrédula! Vou te fulminar! Ops, não posso, esqueci que você vai ser mãe de um dos patriarcas e ele ainda não nasceu. Ok, to falando, o cara lá de cima, mandou avisar que vc vai ser MÃE, então não fica de mimim, tá bom?
-  Ok, ok...Não vou rir mais não, meu!
Aí nasce o menino.
E o pobre do Ismael é mandado embora, sem pensão. Sacana demais esse Abrão.
Abrão expulsando Agar e Ismael - Cadê a Maria da Penha, o MP, o Judiciário? Cadeia nesse velho, gente!
Aí, anos depois, o playboyzinho do Isaac babaca já crescidinho, vem o companheiro anjo, de novo, aquele sacana, e fala pro velho Abrão;
- Aí, velhinho, o cara mandou tu levar o moleque lá pra cima e deitar ele.
- Como assim,"deitar ele"?
- É, deitar, matar, sacrificar, oferecer em holocausto, como tu achar melhor, lá ligado?
- Mas por que? Meu filho, meu único filho! Oh, Senhor, não faça isso...
- O mané, tu tá desafiando o cara? Olha que ele te deita também, hein?
E vai o Abrão com o menino e uma faca lá pro monte.
-  Pai, pra que essa faca tão grande?
- É para enfiar no teu pescoço, filhinho.
- Epa, peraí, como assim?????
E aí, o velho já tinha colocado o moleque na pedra, porque, afinal, antes ele do que eu, pensava, provavelmente, e aí, pluft!
Abrão indo sacrificar Isaac - e o sacana do anjo, aparece "in extremis", em cima da hora, né? Adoro o timing bíblico...
Aparece o sacana do anjo, muito em cima da hora, e segura a faca, e fala:
- Era brincadeira, o cara lá em cima só queria testar sua lealdade, saca? Afinal, não podemos matar um dos patriarcas, dessa sua linhagem tão cegamente fiel virão milhares para matar e morrer em nome dele lá em cima, saca??


Pois é, a Biblia é cheia dessas pegadinhas... 
Por isso curto as histórias biblicas, especialmente as que fazem parte do Pentateuco. 
É tudo muito surreal... Anjos, testes, morte, sexo, incesto, vinho, apostas entre deus e o diabo, provações, salvação, blablabla...
E a Biblia é um clássico, gente!
Vejam quantas obras fantásticas foram inspiradas nela! 
Por isso eu gosto.
E aposto que vocês não imaginavam!!!

Day 19: Favorite nonfiction book


Aproveitando que estou embalada, vamos lá para o meu livro favorito de não-ficção.

Ex Libris, de Anne Fadiman



É um pequeno livro de ensaios, de uma autora estadunidense, e o subtítulo é "Confissões de uma leitora comum".

Comprei em 2002, e me inspirou muitas leituras, dos livro dos quais ela fala. 
São pequenos ensaios ou crônicas, sobre livros e leitores.

O primeiro fala de uma experiência marcante, e se chama: "Casando bibliotecas". 
Anne conta como ela e George, seu marido, depois de anos de casados e morando juntos, finalmente decidiram juntar as estantes, catalogar e organizar os livros, e doar os repetidos. Nossa, super definitivo, né?
E por aí vai. Dedicatórias de livros, um dos mais legais.
Erros de grafia.
Minha estante excêntrica. 
Ah, esse é um dos meus favoritos, e confesso que copiei alguns da estante de Anne, e comecei a ler sobre explorações polares, tema que depois derivou para livros sobre grandes escaladas, do Himalaia, do Aconcágua, do Annapurna, etc. Também alguns livros sobre estes temas estão entre meus favoritos de não ficção.

Quem esta participando deste desafio ou já acabou, se não conhece, recomendo muito!
É uma declaração de amor aos livros,  não só à literatura.
Leve, bem escrito, e com histórias ótimas. Vamos nos reconhecer em muitas delas!!
A parte sobre o sebo, eu me identifiquei total, e também quando ela conta que, na falta de absolutamente qualquer livro, pegou o manual de um carro para ler. Já passei por isso, e, confesso, o manual do carro é uma leitura fascinante... nem tanto,nem tanto, mas melhor que NADA. Já li também bulas de remédio e folhetos de testemunha de Jeová. Não recomendo!


Também estão participando (ou já terminaram): A Tina Lopes, do Pergunte ao Pixel, a Lu, no Eu sou a Graúna, a Niara, do Pimenta com Limão,  a Rita, do Estrada Anil, a Marilia, do Mulher Alternativa, a Cláudia, do Nem tão óbvio assim, a Grazi, do Romanceando, a Mayara, do Mayroses, o Pádua Fernandes, do O palco e o mundo, e a Renata Lins, do Chopinho Feminino

terça-feira, 28 de junho de 2011

Zumbis zombadores



As vezes, me sinto a única humana em uma imensidão de zumbis. Sem alma, sem coração, sem espírito, sem remorso ou outra emoção. Nada além da fome de devorar as emoções alheias.
Dementadores.
E sinto que fico à deriva.
Buscando compulsivamente encontrar outros  errantes, outros que sintam que algo estranho acontece no mundo.
Fico, nau à deriva, navegando solitária em um mar de indiferença, ódio, intolerância, impaciência.
Translúcida como um fantasma, lúcida como uma louca.
Arrasto velas devastadas pelo oceano as vezes agitado, outras plácido, mas nunca seguro, da existência.

Hoje é o dia mundial do Orgulho LGBT.
E, diante de tantas coisas horríveis que vem sendo ditas e feitas por pessoas que agem como verdadeiros zumbis, sem cérebro, sem alma, sem coração, me sinto ainda mais desolada.

Eles sim, os verdadeiros fantasmas de um passado que ainda não passou, que ainda traz para o presente, quiça para o futuro próximo, os vestígios de uma era que ainda não passou, e será que passará?

Hoje me lembrei de uma ocorrência, de abril, que ainda não foi encerrada, porque, com as ferramentas de que disponho, ainda não localizei os agressores.


Em plena estação do metrô, em um local onde param os "perueiros", com suas vans do transporte clandestino, dois rapazes passavam, de mãos dadas. Foram agredidos verbalmente, e quando questionaram, ousaram questionar, o motivo das frases grosseiras, foram agredidos fisicamente.


E pessoas passavam, e pessoas viam, e nada faziam.


E eu, hoje, me sinto como se nada pudesse fazer.
Os agressores fugiram. Não foram identificados.
Não houve solidariedade, ou fraternidade, ou qualquer sentimento do que eu costumo associar a... humanidade.

Houve só a indiferença, a desculpa de não querer se envolver, a desculpa de que eu não tenho nada com isso...


Até quando?
Até quando os templos reverberarão palavras vazias, rebuscadas ou toscas, de fé, amor, fraternidade, amor ao próximo?
Desde que o próximo não seja diferente de mim, pense diferente, se vista diferente, aja diferente?


Descobro, a cada dia, que meus privilégios não me são devidos, enquanto houver pessoas que não só tem fome de alimento, mas tem fome de alento. Fome de afeto, anseiam por poder expressar sem medo seu afeto, seu carinho, seu amor.


Ah,mas tem tantas causas no mundo, as criancinhas estão morrendo de fome... Sim, estão. E você, que me diz que eu não devo andar com gays e lésbicas, porque, ah, vai que todo mundo vai pensar que você também é...  aposto que não ajuda nem as criancinhas nem os velhinhos.


Posso quase apostar, que de dentro do seu carro, você buzina impaciente, quando vê manifestações, essa perda de tempo, esse povo vadio, sem ocupação....


Você quer acelerar e passar por cima, e voltar rapidinho para o seu prédio com porteiro e cerca elétrica, onde as únicas dores que entram são aquelas cuidadosamente dosadas pela programação da tv. Feita para eternecer e entorpecer.


Eu não me sinto mais tão sozinha. 
Tantas coisas me fizeram sair do meu mundo cor de rosa de classe média branca católica hétero, e nada me faz desejar voltar para minha bolha.
Não. 
Minto.


As vezes desejo sim, voltar para uma bolha onde esteja cega ás injustiças que acontecem do meu lado. 
Somente pensar nas criancinhas na África, ou nas mortes no Oriente Médio, e planejar a próxima viagem, e saber das novas tendências de moda e cabelo e maquiagem...


Mas não sou um zumbi.

E ninguém precisa ser.