sábado, 2 de novembro de 2024

Sábado no clube

 Estou aqui no clube *comprei a cota essa semana) e Maria Helena esta com duas amiguinhas na piscina. Estou tomando uma Heineken ouvindo música ruim e pensando no que elas estão conversando... ja comecei a me sentir excluída ao mesmo tempo que feliz por estar livre da demanda constante dela. Fiquei tres anos sem vir aqui, perdi minha cota de aluguel e demorei comprar uma, e qdo vi


nhamos ela nem nadava então  eu nao tinha um pibgo de sossego. 

Agora to aqui sozinha. Pedro não gosta de clube e não vem. 

To ouvindo partes de interações entre outras pessoas aqui e entre as crianças. 

Me sinto a parte. 


Quando a meu psiquiatra e depois minha psicóloga me perguntaram, na epoca do diagnóstico,  se eu nao me achava diferente (eis que neurodivergente) eu disse que sim,  sempre. 

Mas elaborando melhor,  a verdade eque eu achava que era diferente por escolha. 

E não é.


sábado, 1 de julho de 2017

Levain - ou não me chamo Renata

Talvez em algum tempo eu venha a postar como "Ermengarda" ou "Lavínia".
Hoje misturei a farinha e o fermento para minha terceira tentativa de fazer meu fermento caseiro - ou levain, pra ficar mais chic.
Vi os videos do Pão Nosso no canal do Youtube na licença maternidade, em dezembro do ano passado, enquanto minha mãe me ajudava a passar as roupinhas da neném que estava prevista para 11 de dezembro mas só deu as caras no dia 27. Capricorniana, humpf.

Puerpério, volta ao trabalho, férias. Um ano depois e nada de fazer meu pão de fermentação natural.

Comecei em março de 2017, o bicho nem vingou.

Fiz de novo em maio, vingou mas na hora de refrescar, perdi a janela, sei lá, farinha vencida, matei o bichinho.

Hoje começo novamente.

Está na tigela, enroladinho no pano de prato, aninhado como um bebê bactéria.


Segundo o livro do Luiz Américo Camargo (sim, óbvio que eu comprei, não me conhecem?) agora eu devo esperar 48 horas, mexendo duas ou três vezes ao dia, e observando se surgem as bolhinhas e o cheiro forte e agridoce.

Enquanto a menina dorme, e o pai saiu para tocar bateria, eu resolvi "refrescar" este blog empoeirado.

Até segunda, beijo na bunda!

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Família


O tema da terceira semana de gratidão é a família.
Família, com F em maiúscula.
Papai, mamãe, titia.

Neste fim de semana fui para a roça do meu pai.
Eu, marido, filha.
E lá estavam uma de minhas tias e um dos netos dela, o Pedrinho.

Geração que se renova, e que não vai crescer junto, como crescemos eu e minhas primas, pois o tempo muda, tudo muda, hoje temos tablets e não podemos deixar as crianças soltas na rua, durante as festas de aniversário feitas em casa, com bolo e guaraná.

Eu queria minha família mais perto, minhas irmãs, meu irmão. As configurações da vida moderna nem sempre permitem, é correria, compromissos, agendas cheias, a distância.

Quando adolescente, fui meio insuportável, hoje eu vejo. A fissura de crescer e me afastar, não depender.
Ainda bem que a maturidade chegou e ainda tenho pai, mãe, irmãos, sobrinhos, primos, tias e tios.

Rezo para Deus conceder vida e saúde a meus pais, para que minha filha possa usufruir de avós por muito tempo, criar as memórias afetivas que eu tenho. E para que meus pais possam ser avós por muito tempo.



quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Agradecer o amor


Quando a gente se beijou, eu senti aqueles choques deliciosos de quando a pele tem química e a gente sente a presença.
Quatro anos depois, ainda sinto aquele mesmo choque quando a gente se beija.
Quatro anos, uma filha, duas gatas, três cachorras.
Agradeço por ter você na minha vida, meu amor.

Desafio das 52 semanas de gratidão







Começando o ano, e prosseguindo nas tentativas de me tornar uma pessoa organizada ou ao menos menos avuada, eu sigo tentando fazer o bullet journal.
Mesmo não conseguindo sempre, tem me ajudado bastante no dia a dia.
E no Pinterest tem tantas idéias bacanas que mesmo quando eu não faço tudo que eles sugerem, tenho a sensação de que estou mais clean e organizada hahahah
Hoje eu vi este desafio, de 52 semanas de gratidão.
Já estamos na segunda semana do ano, então vou fazer a introdução, assumindo o compromisso de escrever toda semana a partir de hoje, e já já posto da segunda semana.
Motivos para agradecer a gente sempre tem.
E quanto mais a gente agradece mais energia boa vem.
Estamos precisando MUITO de boas energias este ano.
Então vem!



quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Fantasmas


Estou dando um tempo do Facebook.
Desinstalei do smartphone, só tenho no tablet, que só conecta via wifi, e eventualmente nos pc's.
Continuo na rede, mas a rede não é mais a mesma.
Daí fui para o Instagram, onde ao menos era para ser um Pinterest com figuras bacanas.
E ontem postaram "golpe onde a vítima toma cafezinho com os algozes".
E falando sobre "e você aí perdendo amizades" enquanto eles riem e confabulam.

A Luciana escreveu:
 
"A ausência promovida pelo eventual impeachment nos convoca. Será preciso reconstruir a partir dos escombros. Não se trata apenas de identificar as marcas do passado violento nas estruturas do presente, como na Dama Dourada. Nem se trata de saber o lugar dos nossos fantasmas na recomposição da vida, como em Les Revenants. Será necessário enfrentar o vazio. Resistir enquanto a devastação opera. Não sei se estamos prontos. Mas sei que não nos resta escolha. "

 Acho que não perdi amigos. Apenas descobri o lugar de alguns fantasmas.
Eram fantasmas queridos, alguns.
E estou lidando com o luto.

Não tenho falado, e isso é estranho.
Talvez seja uma nova forma de me preparar para o inevitável.
Não sinto que estou pronta. Não queria.

Os fantasmas não são monstros. 
Apenas pensam diferente.
Só que enquanto eu apenas os afasto, com o poder dos botões das redes sociais, eles querem me aniquilar, ou ao menos, tudo em que eu acredito.

Não temos escolha, mas é preciso escolher.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Texto, textinho, textão

Eu entrei tarde na blogosfera.
Conhecia alguns blogs como o Mothern, porque acho que saiu em uma revista, e outros, mas não me aprofundada.
Tinha Orkut e eu estudava para concurso e a internet era discada.
Em 2008 fiz uma pós graduação e a professora de Metodologia foi a Cynthia  Semíramis, a quem achei no Orkut e vi que tinha um link e um blog e daí as indicações e o Luluzinha Camp.
E a Lola Escreva.
E no concurso de blogueiros feministas da Lola, em 2010, euzinha conheci um monte de gente bacana.
Veio a era do Twitter e agora o Facebook.
Blogueiras Feministas e Biscate Social Clube.
Pausa nos blogs.
Ate a Tina Lopes nos chamar, psiu, que tal retomar os blogs e fugir do algoritmo facebosuiano?

Nesses dias em que eu sinto que não estou me fazendo entender, vai ser um alívio voltar a fazer textão. E textinho.

E foi lançada hoje a Central do Textão. 

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Tirando a poeira com o novo meme dos livros!

Cof cof cof!
Mais de dois anos sem escrever aqui, sem nem passar por aqui, quase.
E eis que estou de volta, para participar do desafio dos dez livros, provocado pela querida Luciana do Borboletas nos Olhos, e topado por outras queridas.
Revival dos 30 livros em um mês, só que encurtado.
O desafio é:


  1. Um livro que é um abraço
  2. Um livro que devia ser filme
  3. Um livro que é um soco no estômago
  4. Um livro que você indicaria pra um novo amigo
  5. Um livro que te trouxe um olhar novo sobre a vida
  6. Um livro que você levou até o final só de teimosia
  7. Um livro que mais te ensinou sobre sexo
  8. Um livro que faz viajar
  9. Um livro pra levar pra praia
  10. E pra terminar, um livro que é um amante...

Um livro que é um abraço.

Em mais de dois anos sem escrever (aqui), muita coisa mudou.
Eu, mudei de casa de novo. Cumpri o dito: casei, mudei, sumi.
E para ficar o combo, engravidei.
Estou aqui, com 30 semanas de gravidez, aprendendo que na verdade a gente fica barriguda por praticamente 10 meses, e não 9, como crê o vão senso comum.
O universo das gestantes é as vezes um universo paralelo.
Um vocabulário desconhecido, a ser aprendido antes mesmo de se preocupar com o choros, as fraldas, as mamadas. Parto. Normal ou cesárea? Humanizado? Em casa? Doula? Hã???
Amamentar. Lógico, claro, mas e se algo der "errado"?
LD ou não? Que p...a é LD??????
Print de placenta?????
Gente, sério, para. To ficando tonta.

E sendo mãe aos 39, praticamente a última da família em idade fértil a engravidar, bem informada e bem orientada, ainda assim muitas vezes eu só sentia uma angústia enorme, uma eterna TPM, uma vontade de chorar alternada com ondas de raiva e impaciência com tudo e todos ao meu redor, a preocupação com o andamento da gravidez, com o desenvolvimento do feto, isso tudo. Tá, eu sei, são hormônios.

Dai, no 07 de setembro, eu de plantão, comentava no Facebook sobre algumas questões de gravidez, e a Rê Lins, muito fofa, nem fez jabá na postagem, foi lá no inbox e cochichou que talvez eu gostasse de ler um livro escrito pela irmã dela.

E eu procurei na Amazon, e achei. Maravilha das maravilhas, esse kindle.
Li em poucas horas, ri e chorei com a Ju (tô íntima, né?)
"Sinceramente Grávida", da Juliana Lins.

Leve e gostoso de ler, não é um livro de conselhos nem de dicas, é um livro que conta experiências, que divide o que aconteceu com ela. Não panfleta, não "maternaliza" as grávidas - até porque é uma experiência de uma grávida, o que ela conta!

No meio do turbilhão de emoções da gravidez, eu me senti acolhida pelo livro, pela Juliana, pela conversa leve e franca.

Relacionamentos, família, sexo, tudo isso sem apelar para o humor fácil - tem alguns livros de grávidas que são assim, né, só focam nos enjoos e nas estrias, ha-ha-ha, como são engraçados #sqn

Li e me senti abraçada numa rodinha de chopinho feminino (uma boa ideia, aliás, para qualquer época!)



Sinceramente Grávida / Autora: Juliana Lins / Editora Zahar

Participam do desafio a Lu, claro, do Borboletas, a Niara, do Pimenta com Limão, a Tina, do Pergunte ao Pixel, a Rita, do Estrada Anil e a Rê Lins, do Chopinho Feminino, e por acaso, irmã da Juliana, autora do meu livro-abraço!
 

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Coisinhas sobre mim



1 - Eu sou chorona. Sério. Eu tenho cara de brava, e posso engolir o choro e chorar sozinha, abraçada com o travesseiro ou em um ombro amigo, ou na cama da minha mãe, ou no chuveiro. Então, mesmo que você nunca me veja chorar, essa é uma coisa importante sobre mim.
2 – Eu gosto de ficar sozinha. Não sempre, não o tempo todo, mas eu me basto bem, sozinha. E isso não quer dizer que eu não queira estar junto de ninguém, mas apenas que eu sei valorizar o meu tempo sozinha.

3 – Eu tenho mau humor matutino (tenho outras coisas matinais, também, mas em geral, sou rabugenta de manhã, ainda mais se for cedo). E aí, se eu estiver de pouca conversa, não é nada com você, mas apenas um período. Geralmente passa em pouco tempo. Mas as vezes, o cenho franzido demora para abrir.

4 – Eu sou generosa. Sou boa, em geral. Mas sou desligada, então, se eu esquecer de fazer algo que você pediu, não é por descuido, mas por distração. Então, pode me lembrar, desde que seja numa boa, e não me cobrando.

5 – Eu amo meus amigos, mesmo os mais chatos e esquisitos, mesmo os mais caretas e reacionários. E tento fazer tudo por eles. E isso é inegociável. O mesmo vale para minha família. Sempre. E vou fazer o mesmo por você. É assim que eu sou. (desde que seja relevado o fato que sou distraída e desligada e preciso de agendas e lembretes por todos os lados...)

6 -  Eu adoro sorvete Häagen-Dazs Chocolate Midnight Cookie. Adoro. E gasto os tubos, mesmo, de vez em quando, me mimando com sorvetes caros. E sapatos caros. E livros caros. Ok, eu sou consumista. E me consumo por isso. E isso me lembra outra coisa sobre mim:

7 - Eu sou agnóstica. Ou pretendo ser. Mas minha formação católica é parte de mim. Então, não se assuste com minhas reações de culpa depois do prazer. É assim mesmo. 

8 -  Eu gosto de rock. Mas eu ouço funk de vez em quando, e também adoro viajar ouvindo sertanejo universitário. E até axé, se for um churrasco e tiver cerveja gelada. E aí, tem outra coisa:

9 - Eu adoro cerveja. A-do-ro. E as vezes, eu bebo sozinha, em casa. 

10 -  Eu tenho mania de copos. E taças. E pratos bonitos. E bobagens na cozinha. Na minha casa não tem copo de massa de tomate... Mas pode vir a ter. Porque eu não sou metida a besta. Sou só meio besta, às vezes.

Foi inspirado na Luciana, essa linda, e nesse post dela. 



domingo, 30 de dezembro de 2012

Incômodo

Tem dias que eu queria ser a maioria.
Simplesmente nem tentar sair do meu lugar, me deixar levar pela onda conservadora e moralista e hipócrita, sentar no meu sofá, atrás do meu monitor de LCD ou com o smartphone na mão e usar na vida o filtro invisível das redes sociais. Bloquear. Ativar o filtro e nunca mais ler a pessoa.
Mas não dá mais.
Não sei, pode ser uma mutação, mas sempre me senti desconfortável com muita coisa, para as quais eu não tinha nome.
Hoje tem.
Racismo, homofobia, sexismo, machismo, preconceito de classe, cissexismo.
Eu sou um produto do meu meio, assim como quase todo mundo.
Eu me revolto contra esse meio, as vezes de forma desastrada, ineficaz.
Desde que fui aprovada em um concurso público, para a carreira policial, todas as mazelas do mundo vieram dar no meu colo, na minha mesa, me esbofeteando e me mostrando como eu cresci protegida.
Me mostrando que ler Jorge Amado e Graciliano Ramos e saber da miséria da seca no sertão do nordeste na década de 30 e as mazelas da São Paulo urbana na mesma época, não me preparou em nada para lidar com a miséria, a pobreza, a fome e a violência em uma cidade como Contagem.

Em um dos encontros que tive com a turma da faculdade, Direito, anos depois de formada, já trabalhando como Delegada, um colega me disse que eu paguei a língua.
Que eu, defensora de Direitos Humanos desde a faculdade (engraçado, meus colegas se lembram de mim já como defensora dos "oprimidos". Eu não consigo me lembrar. Faculdade agora é uma época tão longíqua, tão protegida, tão livre de responsabilidades da vida adulta.) fosse trabalhar na polícia, a maior violadora de Direitos Humanos.
E eu respondi que era exatamente ali que eu deveria estar, então, para poder mudar alguma coisa por dentro, de dentro. Que era o melhor lugar para alguém como eu.

E ainda penso assim.
Mesmo não conseguindo fazer tudo o que quero.
Mesmo tendo que lidar com uma cultura que é respaldada e incentivada pela sociedade, de porrada e jeitinhos e pé na porta, e gritos e indiferença com os "alvos" da Segurança Pública.
Mas não são todos que estão imersos e absortos nessa cultura. Não são.
É a maioria? Talvez. Mas não todos e todas.

Por isso eu continuo, e eu tento fazer algo de bom.
E nessa carreira, eu conheci o ódio.
E eu conheci o ódio.
O ódio ao outro.
E o ódio a mim.

Ser policial não é fácil quando você questiona os padrões, os papéis há muito estipulados e divididos.
Ser odiada por ser policial, apenas, e por ser (tentar, ao menos?) sair do lugar comum também não é nada fácil.

Acho que ser alvo de ódio, algo que não era presente na minha vida, pelo contrário, me fez sentir empatia por quem é odiado.

E tem tanto ódio por aí. Por aqui.
Tanto rancor, tanto temor do diferente, que se transforma em ódio e se revela  nas palavras duras, cruéis, ou nas palavras sutis e lapidadas com o conhecimento acadêmico, ou supostamente acadêmico, sei lá.

Que sei eu?
Sei que quando uso uma palavra ou uma expressão que ofende ou incomoda alguém, quando alguém de algum grupo que já é tantas vezes odiado, invisibilizado, oprimido, eu tento parar de usar. Eu tento refletir, sentir se é necessário ou não, mas principalmente, eu paro de usar. Porque pode ofender, magoar ou entristecer alguém que já vive com tanta dor.

E me perturbou uma discussão relativamente recente, que me fez perceber que eu espero demais das pessoas. E talvez também as pessoas esperem demais de mim. Talvez eu espere demais de mim, também.

A verdade é que comecei esse post com mágoa, com raiva, com amargor.
Mas estou tentando não cultivar isso.
Sei que o ódio é necessário.
Sei que muita gente precisa dele para viver.
Eu não.
Eu não quero mais o ódio.
Ele já está muito presente na minha vida, no meu dia a dia.
E eu não sou santa, nem sou  madre Teresa.
Eu sou autoritária, muitas vezes fútil.
Consumista, compulsiva, falo demais.
Bebo, falo besteira, faço besteiras.
Tenho defeitos, mais defeitos do que consigo lembrar agora.
E tenho qualidades.
E uma delas é que sou generosa.
Sou boa.
Nem sempre consigo acertar e talvez boas intenções encham o inferno, eu sei.
Mas não vou me desculpar por isso.

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Esse post foi iniciado há muitos meses, não lembro a data, e estou trabalhando para não gastar energia guardando mágoa, apesar do meu signo do caranguejo ser bem rancoroso.

E hoje, quando vim aqui, escrever quem sabe uma retrospectiva de 2012, fazer projetos para 2013, e adiante, vi o rascunho, li, e decidi publicar.
Porque apesar do tempo, ele continua atual.
Preciso trabalhar nisso!




quinta-feira, 5 de julho de 2012

Pequena tragédia, em um ato

Uma cena em tempo real, com quatro personagens:

A - homem, branco, 22-28 anos, vestindo jeans, tênis, camisa;
B - mulher, branca, 40-45 anos, vestindo legging preta, chinelos e camisa;
C - mulher, branca, 30-35 anos, vestindo vestido preto e branco, scarpins, óculos escuros;
D - homem, branco, 40-50 anos, vesindo bermuda, chinelo, camisa polo, boné;


Todos aparentemente cissexuais, aparentemente heterossexuais e aparentemente classe média.

O cenário:
mercado central de uma cidade metropolitana, 12:00. Um dia qualquer.

(Personagem C chega no mercado, e vai até o local onde ficam os caixas eletrônicos, onde já se encontram A e B, além de um senhor com uma criança, que já estão usando um dos caixas, do banco X, e outra pessoa, no banco Y. Personagem C vê que existem pessoas na sua frente, mas não sabe qual fila deve esperar, já que não há divisórias e o personagem A está no meio do corredor, enquanto a personagem B está do lado do caixa, perpendicular à parede do corredor.)

Personagem C: Por favor, qual é a fila para o Banco X?
Personagem B: aqui, atrás de mim.

(Personagem C vai para trás da Personagem B. Personagem A olha para as duas, aparentemente percebendo que Personagem B já estava no local antes que ele chegasse, se aproxima. Personagem C cede o lugar, e ficam os três, parados.)

Personagem B: Vocês sabem se tem caixa eletrônico do banco Z aqui?

Personagem A: Não sei, não.

Personagem C: Acho que tem, mas não sei onde fica.

Personagem B: Ah, brigada. Acho que vou usar o X, mesmo. Aproveitar enquanto não tiram, né?

Personagem C: Verdade. Com essas explosões, não é mesmo? O da fármácia, perto da minha casa, já foi retirado. Todos estão com medo, o prejuízo é grande, né?

Personagem A: Vocês sabiam que vai ter uma lei para proibir caixas eletrônicos???

Personagens B e C dizem em uníssono: COMO ASSIM?

Personagem A: Pois é, já que não tem jeito de colocar um policia em cada caixa, né, que é o que eles deviam fazer. A gente paga impostos!!!

Personagem B: Mas, rapaz, eu até queria, as vezes, mas ninguém tem como ter um policial 24 à sua disposição! Não é?

Personagem C sorri amarelo: E também, não ia adiantar, porque as quadrilhas que explodem os caixas eletrônicos são bem armadas, e renderiam facilmente um policial, você não concorda?

Personagem B: Ainda tem isso, verdade, ninguém vai morrer por causa disso. Se bem que eu já fui roubada - diz com expressão orgulhosa - e não deixei barato, dei um pega no ladrão, e ele não levou o que queria!

Personagem A: E também acho que policia não ia adiantar, porque policia é tudo corrupto!!!

Personagem C, novamente, sorri amarelo, mas com o rosto já corado. Personagem A não percebe nada, e continua falando.

Personagem A: Porque nesse país, nada vai pra frente. DEVIAM MATAR TODOS OS POLÍTICOS, PEGAR ESSES CARAS QUE ESTÃO EXPLODINDO OS CAIXAS E EXPLODIR BRASÍLIA!!!!

Personagem B: Meu filho, vocé é muito revoltado, né? (diz, olhando para Personagem C, que só acena com a cabeça)

Personagem A: EU SOU PAI DE FAMÍLIA, SOU TRABALHADOR, SOU CASADO, SOU BEM SUCEDIDO! NÃO SOU REVOLTADO! SE EU FOSSE REVOLTADO EU NÃO TINHA NADA!!!

Personagem C: Mas eu, de certa forma, posso dizer que sou bem sucedida, que tenho tudo que quero, e sou super revoltada, uai! Não tem nada a ver uma coisa com a outra...

Personagem B: É,uai, não entendi. Eu acho que o mundo está muito estranho, ninguém mais liga para os outros.

Personagem A: É, as pessoas não valem nada mesmo, todo mundo só quer se dar bem.

Personagem C: Ah, mas ainda acho que existe muita gente boa, se fossemos todos ruins, nossa, nem imagino como seria!

Personagem A: Eu acho que é tudo culpa dos políticos, esse bando de ladrões. ALGUÉM TEM QUE EXPLODIR BRASÍLIA!!!

Personagem C (perdendo a paciência): MAS BRASILIA É RESULTADO DO VOTO, VOCÊ LEMBRA EM QUEM VOTOU NA ÚLTIMA ELEIÇÃO? SABE O QUE ELE FEZ???

Personagem B: Pois é, a gente não sabe votar, este ano vai ser dose, aquele ex-prefeito querendo ser eleito de novo, socorro, onde essa cidade vai parar??

Personagem C: Eu já disse que se ele se eleger, eu me mudo. Enquanto ele for prefeito eu não vou morar aqui!

Personagem A: MAS ELE CONSTRUI O HOSPITAAAAL!!!!

Personagens B e C, juntas: COMO ASSIM?


Personagem A (finge que não ouviu e continua): Ele parou de cobrar IPTU, e essa cambada que tá ai, aquele outro, que é defensor de vagabundo, de bandido, vai voltar com o IPTU. EU NÃO PAGO IPTU! É UM ABSURDO!! EU COMPRO UM CARRO POR ANO COM O VALOR DO IPTU! EU NÃO ACEITO PAGAR IPTUUUUUUUUU!!!

Personangem C: MAS É UM ABSURDO! TODO MUNDO TEM QUE PAGAR IPTU, É PRATICAMENTE O ÚNICO IMPOSTO QUE É JUSTO, PORQUE IMÓVEIS DE RICOS PAGAM MAIS!!!!

Personagem B: E eu lembro como era, quando ele era prefeito, não tinha nada, só aquela casca de hospital que foi inaugurado só para mostrar. Quando o governo atual assumiu, não tinha nem gaze no hospital, a corja dele, cabide de emprego, levou até os clipes de papel!

Personagem A: MAS POLÍTICA É ASSIM MESMO, TODO MUNDO FAZ!!!!!

Personagem C (visivelmente se contendo): MAS É POR ISSO QUE ESTÁ TUDO ASSIM! Como pode, um rapaz jovem como você, ter essa cabeça?

Personagem A: Mas prefeito bom aqui foi aquele que asfaltou as ruas tudo. Ele era bão! Rouba mas faz!!!

Personagem B: Meu filho, governo bom foi este, pena que não pode continuar.

Personagem C: Também acho. Por isso vou votar no candidato de continuidade.

(Personagem B vê que o caixa vagou, e vai sacar dinheiro.  Nisso, surge um senhor idoso. Personagem B percebe e cede a vez.)

Personagem A: Ah, eu não aceito isso não, uai! Esse povo é muito folgado!

(O senhor idoso tenta, tenta, enquanto o papo meio que morre entre A, B e C. Até que o velhinho se vira e pede ajuda. Personagem B e C se oferecem para ajudar. Não adianta, o cartão não foi reconhecido, elas sugerem que ele vá até a agência. Personagem B vai sacar seu dinheiro. Personages A e C aguardam na fila.)

Personagem A: Eu não ajudo não, esses véio, porque depois dá confusão. Você... não é que você seja velha... é que ....

Personagem C: hum.

(Surge o Personagem D, e para no meio do corredor, fora da nova fila formada por B, agora no caixa, A e C.)

Personagem C: Senhor, a fila para o banco X é aqui.

Personagem D: Não é não, sempre foi aqui.

Personagem C: É que aí fica no meio do corredor, atrapalha as pessoas passarem, a gente achou melhor fazer aqui.

Personagem D: Problema seu. A fila é aqui, sempre foi, e eu não vou mudar.

(Personagem C, olha, perplexa, para o personagem A, que sorri amarelo.)

Personagem C: Tá vendo porque as coisas não melhoram? Uma coisa mais boba, que é muito mais prática, não muda. É brincadeira...

Personagem A: Ah, mas... ele tem a opinião dele....

(Personagem A visivelmente desconversa. Personagem C fica visivelmente fumegando. Personagem B termina de usar o caixa, se despede e vai embora. Personagem C fica no seu lugar, perpendicular ao corredor, e não na frente do caixa, no meio do corredor. Outras pessoas chegam, e vão para trás do personagem D. Personagem A usa o caixa e sai. Personagem C usa o caixa, e sai.)


(Cai o pano.)


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Esse pequeno drama aconteceu comigo ontem. Está bem resumido, houve algumas adptações, mas a essência da conversa foi essa. E a fala final, de D, também.

Eu estava de vestido preto e branco.

Acho que se eu tivesse inventado o Personagem D para fazer o fechamento daquele diálogo com A, não teria sido mais conciso e preciso ao fornecer o exemplo claro do que falávamos. 

Foi épico, quase. Uma pequena tragédia, em um ato.

Seria cômico, se não fosse trágico. 
E real, infelizmente. Apesar de parecer meio... teatro do absurdo.


(ah, me perguntaram no FB o que é cissexual, e eu linkei este post: O que é cissexismo. Achei relevante colocar, porque, como já havia descrito as pessoas pela idade, pelo gênero e pela cor, achei que era importante deixar ainda mais claro que nenhum dos personagens pertence - ao menos aparentemente - às minorias tradicionamente oprimidas socialmente, apesar de, enquanto mulher cis, hétero, eu sofrer, sim, diversas discriminações. Acho que, na análise que eu não fiz da cena, aqui no post, é importante contextualizar ao máximo as minhas impressões de cada personagem, para que o leitor possa também situá-los. Pode ter sido desnecessário? Será? )

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Meme dos 30 livros... em um ano!

Gente, não sirvo para fazer meme.
O mês passou, na verdade, o ANO passou, e ainda faltam NOVE tópicos para escrever (pensando aqui: ainda bem que não me meti a escrever sobre os trinta filmes, ou pior, sobre o desafio musical de sei lá quantos dias).


Pra não dizer que eu não cumpro o que prometo...
Ai vai o melhor livro que eu li este ano.
Mas... peraí.
Este ano ou no ano que comecei o meme?
Bem... deixa prá lá, vai o melhor do ano passado mesmo, porque acho que não li nada de novo este ano, estou só relendo até hoje...


Então.
O melhor.
Odeio ter que escolher. Odeio odeio odeio, nunca mais brinco de fazer listas!


...
pausa para um cigarro, depois do drama.
....


Então, eu parei no 20 livro, que foi: o último livro que li - "A insustentável leveza do ser", de Milan Kundera. 


Bom, isso significa que ainda faltam 10. 
E vou mandar de embolada!


Day 21: The best book you’ve read this year 
Olha, este ano o ano que comecei o desafio ou este ano este ano agora?
Bem, bem, bem... para de enrolar.
O melhor livro que li este ano, 2012, foi

Day 22: Favorite book you had to read for school

O meu livro favorito que tive que ler para a escola foi...
Encarnação, do José de Alencar?
Ah, sei lá, acho que foi, tem tanto tempo...
Lembro que foi indicação da escola, e este eu ainda não havia lido (o que era raro de acontecer).
Lembro que gostei que a mocinha toma a frente das coisas e faz acontecer, diferente da tonta da Ceci, de O Guarani, que ficava esperando que a salvassem (este, definitivamente, entraria num top de livros que não gostei e tive que ler para a escola, vestibular, sei lá pra que que foi)
Lembro que uma colega evangélica ficou enchendo o saco falando que o livro era demoníaco, espírita, essas coisas. Então, acho que é isso.

Day 23: The book you’ve read the most times

O meu livro mais "relido".
Caramba...
São tantos... Mas, acho, por alto, que é Orgulho e Preconceito.
Foi meu primeiro Austen, comprado em uma versão de bolso, pobrinha, fraquinha, mal das pernas.
Uma adaptação, na verdade, encontrada em um sebo, há muitos e muitos anos.
Depois, consegui a versão original, traduzida. E a li dezenas de vezes. Antes amava a Lizzy, depois descuti, e hoje, de novo, amo. Falando neles, acho que vou reler hoje!
E depois, li em inglês;
E agora, quero ler a versão com zumbis!

Day 24: Favorite book series

Atualmente?
The Sookie Stakhouse Series.
São os livros que deram origem ao seriado da HBO True Blood.
Acabo de ler o último da série, lançado pela Amazon, pelo kindle (minha melhor aquisição recente, atrás somente da minha bolsa de print de onça e da minha bota de cowboy com detalhes pink...)
A qualidade caiu bastantinho, mas ainda gosto. A Sookie dos livros é totalmente diferente da Sookie da série.

Day 25: A book you used to hate but now love

Um livro que eu costuma odiar, mas agora amo...









hum... passo!

Day 26: A book that makes you fall asleep
Um livro que me faz dormir? Qualquer um de auto-ajuda! Lembro que tive que ler um na faculdade (não pergunte) e não conseguia.


Day 27: Favorite love story

Persuasão.

Como eles enfrentam o tempo, que é o pior dos inimigos dos amantes... e se juntam no final...
E a Anne é doce e determinada, e o Frederic, bem, depois de Darcy, ou antes... empate. Desempate no meu quarto, hoje, senhores!

Day 28: A book you can quote by heart
Sério? Sou pésssima com citações, lembro do enredo, dos personagens, e até algumas frases, mas não me peçam para citar algo, igualzinho, porque não consigo.


Day 29: A book someone read to you
Sério? Não lembro.


Day 30: A book you haven’t read yet but want to


O quinto volume de Game of Thrones!
Está no kindle, mas o quarto foi táo complicadinho que estou com desânimo de pegar o quinto.


E pronto!
Foi quase uma gestação, mas acabou!
E nem foi tão difícil, né?


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Nunca mais me pego aceitando um desafio desses! Nunca mais!
Momento Scarlet O'Hara. 

domingo, 15 de janeiro de 2012

Conto escuro

A logística foi mais difícil de ser planejada que de ser executada.
Conseguir a identidade falsa, a peruca (tão clichê). A arma.
Descobrir o endereço não foi nada difícil. Vigiar o lugar foi meio tenebroso, mas ao mesmo tempo, divertido.
Ver você chegar, sair, voltar. Sem saber que eu estava ali.
Cheguei a ter pena. 
Cheguei? Na verdade, não.

Meu plano era perfeito. É perfeito. 
Ninguém nunca saberá quem você irritou mais, quem teria tempo, oportunidade, motivo suficiente para ir parar naquele fim de mundo, naquela portinha, em um carro alugado naquelas agências que não ligam pra nada se vc pagar em dinheiro. Imagino que elas tenham suas formas de recuperar o carro, se eu não devolver. Mas eu vou devolver. Claro que vou. Não vou roubar nada, só terminar um assunto espinhoso.

Duplo homicídio. Duas balas, direto na cabeça. Nuca. Estilo execução. Acho que o fato de você continuar a fumar o seu baseado vai ajudar na investigação. Na dúvida, eu levei um bom pacote, para não deixar dúvidas. Nem precisei deixar na cena, o seu já fez efeito suficiente. Acho que ela devia gostar também, de um jeito que eu nunca curti.
O sangue tem um cheiro doce. E os miolos não se espalharam tanto. Eu devia ter escolhido uma doze, se queria mais bagunça. Mas um três-oitão é tão eficiente quanto, e faz bem menos volume  na bagagem.
O sangue é viscoso. Lembra que eu te falei, que parecia grosso, naquele duplo homicídio da praça? Mesmo antes de coagular, e claro que não fiquei aí tempo suficiente para deixar coagular. Saí logo depois dos disparos, de conferir a pulsação e ter certeza do fim. Do seu fim. Ela? Ela foi “efeito colateral”, na guerra, inocente morre. Não precisava ser ela, sabe. A outra serviria melhor ao meu propósito.
Teria sido perfeito, na verdade, se fosse a outra, aquela. Podia servir melhor ao meu plano, seria o motivo perfeito para outra pessoa ter feito o que EU fiz.
Lembra, como a gente ria, combinando um assassinato em massa? Você nunca achou que eu seria capaz. Mas eu sou. Eu fui. E seu olhar de ódio impotente, nossa, como me encheu de deleite! Eu tive até tesão, ali, naquela sala, com vocês dois me olhando, com ódio, com medo, com dúvida. Dúvida sobre o que falar, sobre como agir, sobre como reagir à minha frieza e indiferença. Nada me faria parar, ela percebeu antes de você.
Você achava que me desvendava, mas nunca me conheceu. Tanto quanto eu te inventei, você me inventou. Inventou a primeira, a que te encantou, e inventou a última, a que você deixou. Você nunca soube quem eu realmente sou.
Eu sou má. Eu sou capaz de matar. E de me safar de homicídio.
Eu matei você.

Antes de voltar, eu joguei fora a arma. Numeração raspada, comprada em um posto na beira da estrada. Engraçado como quem me vendeu me temeu. Claro que quem vende uma arma sabe o que quem comprou vai fazer. Contra si ou contra outro. E aquele, aquele nunca mais vai vender arma nenhuma pra ninguém. (Afinal, eu precisava testar a mercadoria.)
Saí dali, deixei o carro no hotel fuleiro onde me hospedei. Peguei um táxi e fui para o terminal. Ônibus de volta, e dali, direto para o aeroporto.
Eu sabia, ah, como eu sabia, que nunca iriam chegar até mim.
Nunca ninguém saberia que eu estourei seus miolos.
Crime hediondo...
As família inconsoláveis.
A conclusão da polícia é que foi um acerto de contas de drogas.
E eu, em Paris, sentada na calçada e fumando um cigarro.
A fumaça, suja e fedorenta, me envolve como um casulo. E eu rio, meio sufocada com a simplicidade da morte. E tomo outro gole de vinho tinto.
Minhas mãos tremem. 
Espirro uma gota de vinho na toalha branca.
É o frio, digo a mim mesma. É o frio.


* Inspirado no conto da Borboleta, O céu negro de Lucy

sábado, 14 de janeiro de 2012

As mentiras

Disseram que  eram feitos um para o outro.
Disseram que eram almas gêmeas.
Disseram que se completavam.
Disseram que os opostos se atraiam.
Disseram, enfim, as mentiras de praxe.
Disseram que conversariam sobre tudo, e que seria só enquanto fosse bom.
Disseram, como disse, as mentiras de praxe.
Acabou que não eram assim perfeitos um para o outro, como sempre se soube.
Disseram então algumas das verdades que surgiram no caminho.
Algumas meias verdades também. Ou quem sabe, mais mentiras inteiras.
Mas aí, já não mentiam um para o outro.
Mentiam para si mesmos.
E seguiram, cada qual seu rumo, contando a si mesmos mentiras sobre o que passou.
Ou, quem sabe, sobre o que nunca houve.
Fim.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Sobre ver o que queremos ver...

As vezes, quando aponto para algum amigo ou parente um aspecto de alguma coisa que achei machista, homofóbico ou racista, me dizem:
"Credo, mas também, você encontra pelo em ovo. Fica procurando chifre em cabeça de cavalo, nossa. Não tem nada disso, você está viajando."

E outro dia, andando pela cidade, estava reparando em quantos cães abandonados estão por aí, em todas as esquinas. Alguns mais gordinhos, outros esquálidos e assustados.

Eu sempre gostei de bichos. Sempre.
Mas depois que passei a tentar realmente ajudar, parece que eles pulam diante dos meus olhos, em todos os lugares.

Eu escolhi abrir os olhos, e o coração.
Então, quando eu assisto "Enrolados", e vejo a princesa boazinha Rapunzel e seus longos cabelos loiros e lisos, e vejo a vilã, com cabelos negros e crespos, bem...

Eu escolhi ver, poxa, que ali, sim, se reproduz um estereótipo do que é bom, belo, digno de ser amado, e do que é ruim, feio, indigno de amor e respeito.

Quando eu vejo a publicidade ridícula de uns tais "panos umedecidos" para limpar o iogurte derramado, e depois, pela rua, toda a mulherada (branca, claro) gritando e levando cartazes de U-HU! eeu fico sim, indignada.


Porque eu escolhi ver, sim, o que há por trás dessa aparentemente inofensiva e "engraçada" peça publicitária.


Eu escolhi ver.
Escolhi ver porque eu gosto de pensar que posso tentar ao menos fazer alguma coisa, nem que seja escrevendo umas poucas linhas, nem que seja falando para uma pequena platéia, sempre que posso, nem que seja para refletir sobre isso a cada instante no meu trabalho e tentar fazer diferente.

E aí, como eu escolhi ver, tudo isso pula, sim, na minha cara.
Todos os dias.
Como os pobres cães abandonados, que estão sempre no meu mural das redes sociais.

Talvez eu fosse outra pessoa, se tivesse escolhido fechar os olhos e o coração.
Talvez sofresse menos.
Talvez não.
Isso sempre esteve em mim, questionar o que está posto, querer saber o porque, sofrer quando não posso mudar nada.

Boa sorte para quem escolhe fechar os olhos, e achar que é piada, que é pelo em ovo, que é chifre em cabeça de cavalo.

Espero que um dia, não terminem chifrados pelo unicórnio que escolheram NÃO ver.