domingo, 4 de setembro de 2011

Nono livro: O mais triste que já li

Já escrevi aqui sobre Vidas Secas ser o primeiro livro que me fez chorar, com a cena da cachorra Baleia.
Hoje, no meme dos 30 livros (em mais de um mês, pq a pessoa é procrastinadora crônica e aí já viram...) tenho que pensar no livro mais triste que já li.


E acho que é Cidade de Deus, do Paulo Lins. (disponível aqui, em pdf)



Adorei a narrativa. Acho que Paulo Lins, em Cidade de Deus, equivale a Guimarães Rosa. A linguagem do morro tem uma gramática própria, e é parte importante da narrativa.

É um livro excelente, já considero um clássico, e é uma obra muito triste.
Não é um romance sobre pessoas, é sobre a cidade. 
É sobre o Rio de Janeiro, mas poderia ser sobre qualquer cidade.
É sobre esse sistema feladaputa no qual estamos inseridos, esse modo de produção fudido, que incentiva o individualismo e a ascensão social a qualquer custo. Capitalismo, esse monstro.


Cidade de Deus é um murro. 
Uma sucessão de murros, pontapés, facadas, tiros.
Na boca do estômago, na cara, na alma.



A linguagem crua, a descrição detalhada de cenas de violência, que não banalizam nada, mas pelo contrário, tornam cada página um martírio.
E a gente lê, sabendo que não vai melhorar.

Foi o livro mais triste que li.
De uma tristeza diferente da tristeza de Vidas Secas, mas ao mesmo tempo, com semelhanças.
A desesperança, que é diferente do desespero, dá o tom do romance.

Não há objetivos.
O sonho de ser dono de Cidade de Deus nada mais é que o sonho do Eike Batista ou qualquer outro empresário ou financista de ser dono do mundo. Só mudam as dimensões.
Nem mesmo a forma de conseguir obter o que se quer difere: Zé Pequeno estupra, tortura, mata, rouba.
Empresários e financistas, também.

Não idolatro Zé Pequeno.
O odiei no filme. No livro, consegui estabelecer certa empatia por ele, mas ainda o odeio.
O fato dele ser feio, pobre, favelado, fodido, não lhe dá o direito de ser mau. 
E ele não é mau só com os playboys e patricinhas, é mau com seus "iguais". 
Ele não tem (e nem quer) redenção.
Não falo de perdão. Quem pode perdoá-lo, senão ele mesmo?
Falo de aspirar algo diferente.

Ah, sim, ele aspira algo, que não sabe bem o que é.
Nesse ponto, me identifico com ele.

O livro todo é incrível. Tão bom quanto o filme, ou melhor.
Recomendo, mesmo, a leitura. 


E foi o livro mais triste que já li.
Baseado em fatos reais, escrito com o coração, Paulo Lins foi magistral.
E poderia ser relançado, hoje, com as datas alteradas, e nada, absolutamente nada, mudou.

Não sei se é porque trabalho no sistema de justiça criminal, mas o mais assustador e o mais triste livros que já li tem em comum o tema da violência, da criminalidade, da pobreza, da corrupção, da miséria humana no Brasil.

Deve ser. 
Significa.

Também estão participando a Luciana, a Niara, a Marília, a Claudinha, a Mayara, a Grazi e a Tina Lopes, que foi quem começou primeiro o desafio, e nos inspirou a todas.


* Se você quiser comprar, no Submarino está à venda a edição de bolso, que foi a que eu li.
O Paulo Lins revisou o livro, e fez alterações substanciais, diminuindo o número de páginas e renomeando personagens. Quero ver se encontro a edição original para comparar.

** Dia 7/9, dia da Independência (??) ocorrerá mais uma edição do Grito dos Excluídos.
Eu vou. Mas, como disse o Lucas, do Diário da Liberdade:


"Lutar contra a corrupção é lutar contra o capitalismo. Tenha isso em mente antes de emitir um grito no dia 7 de setembro."

sábado, 3 de setembro de 2011

O livro mais assutador, a realidade ainda mais aterrorizante

Quando tinha dez anos, li um livro de terror, tipo Stephen King, que era do meu pai.
Foi aterrorizante. Era a história de uma mãe que se separa, após perder a filha, e vai morar em uma casa assombrada. E a gente não sabe se é assombrada mesmo, ou se é a mulher que é assombrada por fantasmas do passado. No meio do livro, descobrimos que a filha  morreu após engasgar, e a mãe tentou fazer uma traqueostomia de emergência, mas acabou cortando a garganta da menina... E o fantasma da menina aparece, e ainda tem uma menina psicopata que mora na vizinhança... Muito terror mesmo. Lembro de uma cena na qual a menina, loirinha, mais ou menos dez anos, coloca um passarinho entre as hastes de uma roda de bicicleta, e pedala, despedaçando o passarinho. Horrível.

Durante muito tempo, foi o livro mais assustador que já li. Mesmo Carrie e Christine, o carro assassino, ambos do King, não me aterrorizaram tanto. Crianças diabólicas e crueldade contra animais, no mesmo livro, foi demais.

Até que, há pouco mais de um ano, comprei, na esteira de Elite da Tropa, o livro, e Tropa de Elite, o filme, um livro que se chama Sangue Azul: Morte e corrupção na PM do Rio.

E fiquei simplesmente paralisada de terror.
Eu sou policial. Não sou, nem posso ser, ingênua. Sei que coisas horríveis acontecem. Nunca vi, mas sei. Todos sabemos.
Execuções.
Corrupção.
Extermínio.
Tráfico de drogas, prostituição, tráfico de armas.
Extorsão.
Assassinatos.
Estupros.
Tudo isso, feito por quem deveria servir e proteger.

O livro conta a história, supostamente e provavelmente verídica, de um pm do RJ, que adotou o pseudônimo "Rubens".

É um livro horrível.
Conta, em detalhes, como um jovem entra para a polícia com as melhores intenções, e é engolfado pela onda de crimes e violência, não que deve combater, mas à qual deve aderir, para sobreviver.
Não há glória.
Não há redenção.
Não é como Elite da Tropa, quando mesmo com as denúncias de mazelas infinitas, ainda há vislumbres de que algo pode mudar, para melhor.


Em Sangue Azul, nada melhora.
O livro logo no começo descreve uma cena de estupro, de um grupo de policiais contra duas meninas da favela, ao lado do corpo sem rosto do traficante executado.
E só piora. Piora, piora, piora.


Pior que falecerf fisicamente, é o que eu sinto por dentro. Melhor, o que eu não sinto. Além do medo, não sinto mais nada. E quanto o medo acabar, só me restará a morte.

Não é um livro bem escrito.
Mas é assustador.
Me faz pensar que a realidade é ainda mais aterrorizante que qualquer livro.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Abençoada pela sorte

Continuando, bem atrasadinha, com o meme Um Mês, Trinta Livros, hoje é o dia de falar sobre um livro que odiei, mas tive que ler para a escola.

Como já disse exaustivamente aqui, tive a sorte tremenda de gostar de ler, e de ter todas as oportunidades para cultivar esse hábito. Tive acesso a livros, a livrarias, a bibliotecas. Minha casa sempre teve livros e revistas e jornais espalhados, mesmo "juntando pó". 
Na escola, era difícil para os professores de literatura indicarem um livro que eu não houvesse lido. 
E acho que se houve algum que não me agradou, o esqueci com facilidade.
Não gosto de cultivar o ódio.
Acho que ódio é uma palavra que reservo para coisas realmente detestáveis: guerra, violência, intolerância, fanatismo...
O ódio é a morte.
Eu amo a vida (ou quero amar, a maior parte do tempo).
O ódio pode dar forças em alguns momentos, para algumas pessoas.
Não para mim.
Eu amo a ira.
O furor, a raiva.

São vitais e necessárias. 
Podem ser o impulso que mantém a vida, em momentos de dor.
As vezes é melhor a raiva que a dor,  me disseram.
Mas, mesmo sendo canceriana, signo de Lua, apegada ao passado, um caranguejo que avança enquanto anda para trás, não gosto de guardar rancor.


Li tantos livros na escola.
A maioria me agradou.
Com todos creio que aprendi alguma coisa.


Assim como com as pessoas que passaram e as que passarão ainda pela minha vida.


Então, posso dizer que fui abençoada, e que minha memória de elefante não guarda nenhuma recordação de um livro que odiei mas fui obridada a ler? (claro... vou deixar os jurídicos de fora, né? Estamos falando de escola, não faculdade, livros de literatura, não é?)


Guardo as recordações dos que amei.
Guardo com carinho mesmo os que me fizeram chorar.
Alguns tenho na estante até hoje.
Outros, só num cantinho da memória.


Também estão participando a Lu Borboleta-Graúna, a Niara, a Mari Moscou, a Tina Lopes, que foi quem deu a idéia para a Lu, e começou com isso, a Rita, a Claudinha, a Grazi e a May...



* Pra não ficar muito muito boazinha, e dizer que não odiei nenhum livro, acho que teve um sobre gravidez na adolescência, drogas, essas coisas, que era tão mal escrito mas tão bizarro que eu achava era graça, e tivemos que ler acho que na sétima ou oitava série... Não lembro o nome, mas pode-se dizer que foi um que odiei.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

É doce morrer no mar - O autor que eu amo

Acho que esse dia vai me pegar...
Já pegou. Um livro do meu autor ou autora favorito?
Como assim??? Não consigo!!!

Escolher o livro já é quase uma traição, como escolher entre os filhos queridos, ou no meu caso, qual bichinho é o mais querido... Não tem como. O livro eu ainda arrisquei...
Mas o autor??? Como escolher?Tantos, tantos, tantas queridos e queridas...


Durante boa parte da infância, foi Monteiro Lobato.
Depois, Pedro Bandeira.
Depois, José de Alencar...
Descobrir a literatura brasileira...
Machado de Assis, uma paixão...

Depois, Maupassant. Flaubert. Moliére. A fase francesa... Influência de Angélica, a Marquesa dos Anjos.

Hemingway... ah... O velho e o mar, Por quem os sinos dobram, Adeus às armas...

Depois, a fase vampiresca: Anne Rice. Sim, podem me julgar... 

Mas, meu autor favorito...

Jorge.
Ele.
O bahiano.
Quem me fez amar o Brasil.
Amar a Bahia.
Amar o que há de negro em mim, em nós.
Amar.
Sim, ele é meu autor favorito.
Eu o amo.
Sonhava conversar com ele, com aquele velhinho simpático, gorducho, bonachão.
Conversar com ele e com Zélia.
Acho que o amo tanto não só pelas obras, que também amo, por seus cenários coloridos e decadentes de cais e portos, de puteiros e rendez vouz, de malandros e doutores, putas e damas, mas também pela vida que viveu, e que Zélia contou nos livros de memórias, desde que se conheceram até a velhice.



Sim, ele é cheio de defeitos.
Cliches a não mais poder.
Cenários que no final da carreira, já se repetiram tanto que se tornariam cansativos, não fosse o amor que ele derrama em cada frase.

Eu o amo.
Com seus defeitos e virtudes.
Entre as virtudes, algumas que seriam defeitos.
Amo os personagens, amo a cor e o sabor.
Amo a vida que ele viveu.
Amo.

Sim.
Na verdade, não foi tão difícil.
Não se trata de um favorito escolhido por suas qualidades literárias, ou por seu teor de erudição.
Mas por tocar meu coração.
Jorge me toca ao som de um atabaque imaginário.
Me esquenta com o calor da Bahia de Todos os Santos.
Me acolhe em seu peito, com a quentura de uma tarde em Itapuã.

Jorge Amado me faz gozar.
Gozar em ser brasileira.
Gozar por ser mulher.

Me faz querer ser Gabriela, Rosa Palmeirão, Teresa Batista Cansada de Guerra, ser Dona Flor, ser Lívia, ser Tieta, ser Adalgisa, ser Maria Manuela, ser todas.
Ser mulher.

Estrela matutina. No cais o velho Francisco
balança a cabeça. Uma vez […] ele
viu Iemanjá, a dona do mar. E não é ela quem vai agora de pé no Paquete Voador?
Não é ela? É ela, sim. É Iemanjá quem vai ali. E o velho Francisco grita para os
outros no cais:
— Vejam! Vejam! É Janaína.
Olharam e viram. Dona Dulce olhou também da janela da escola. Viu uma
mulher forte que lutava. A luta era seu milagre. Começava a se realizar. No cais
os marítimos viam Iemanjá, a dos cinco nomes. O velho Francisco gritava, era a
segunda vez que ele a via.
Jorge me faz amar.
Jorge me faz amar o candomblé, a capoeira, o dendê.


 Jorge Amado.
Sim, Amado.

À frente de seu tempo, as mulheres de Amado.
Dera-se conta da vida das senhoras casadas, igual à da mãe. Sujeitas ao dono. Pior
do que freira. Malvina jurava para si mesma que jamais, jamais, nunca jamais se
deixaria prender. Conversavam no pátio do colégio, juvenis e risonhas, filhas de
pais ricos. Os irmãos na Bahia, nos ginásios e faculdades. Com direito a mesadas,
a gastar dinheiro, a tudo fazer. Elas só tinham para si aquele breve tempo de adolescência.
[…] Chegava um dia o pai com um amigo, acabava o namoro, começava
o noivado. Se não quisesse, o pai obrigava. Acontecia uma casar com o namorado,
quando os pais faziam gosto no rapaz. Mas em nada mudava a situação. Marido
trazido, escolhido pelo pai, ou noivo mandado pelo destino, era igual. Depois de
casada, não fazia diferença. Era o dono, o senhor, a ditar as leis, a ser obedecido.
Para eles os direitos, para elas o dever […]
Malvina, a personagem de Gabriela que se revolta com seu tempo, e foge, escapando de seu destino traçado naquelas Terras do Sem Fim. A primeira feminista que conheci e amei.


Amado me fez amar Caymmi e Clara Nunes.
 

"É doce morrer
no mar/nas ondas verdes do mar”

Amado.
Sim, é óbvio.
Eu o amo.
Amo o Velho Marinheiro.


No final, não tem dúvidas quanto a isso.
O amor não tem dúvidas.
O amor se atira, se dilacera.
Mas é o amor.

Que pode dona Flor dizer? “Vai-te embora, maldito, deixa-me honrada e feliz com
meu esposo” ou bem “Toma-me em teus braços, penetra minha última fortaleza,
teu beijo vale o preço de qualquer felicidade”, que lhe dizer? Por que cada criatura
se divide em duas, por que é necessário sempre se dilacerar entre dois amores, por
que o coração contém de uma só vez dois sentimentos, controversos e opostos?




Também estão participando:

Luciana, Niara, Marília, Tina Lopes, Rita, Cláudia, Grazi e Mayroses


Eu sou a Graúna
Pimenta com Limão
Mulher Alternativa
Pergunte ao Pixel
A Estrada Anil
Nem tão óbvio assim
Livros e opiniões
Mayroses

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Ninguém sai

Fiquei uns dias sem escrever o desafio dos trinta livros. Já me perdi.
Acho que estou no quinto livro, o que me faz rir.
O que me faz rir.
O que me faz rir?
Muitas coisas me fazem sorrir: observar minhas gatas brincando com o rato de pelúcia, observar meus cachorros ouriçados quando me veem chegar, um casal se beijando no ponto de ônibus, minha mãe brigando com meu pai por bobagens, os dois ainda apaixonados depois de mais de quarenta anos de convivência.
Me fazem sorrir a música, a amizade, crianças de colo, árvores florecendo, o som da chuva na janela.
Ah, a chuva na janela... Anseio pela chuva que virá, para lavar minha alma e me fazer sorrir, ao dormir com o som das gotas caindo e e levanddo a poeira e a aridez que me povoam nesses tempos.

Me fazem sorrir os livros.
Todos. Ao abrir a primeira página, depois de escolhido.
Aí, alguns me fazem chorar, outros me deixam indignada, outros me dão raiva, ouros, esperança.


Rir.
Um livro que me faz rir?

As comédias da vida privada.
Luiz Fernando Veríssimo.

A ironia, a destreza em trilhar os caminhos do cotidiano, e criar o riso nas situações corriqueiras ou absurdas.
Várias delas me fazem rir, como a do marido que perde a aliança no bueiro, cria mil desculpas já que acredita que a mulher não vai acreditar na verdade, e é perdoado ao inventar uma infidelidade.
A verdade não é crível.

Acho que minha crônica favorita é a do poquer. Cinco amigos. Uma mesa. Uma partida interminável.
Ninguém sai.



Cinco jogadores em volta de uma mesa. Muita fumaça. Toca a campainha da
porta. Um dos jogadores começa a se levantar.
Jogador 1 - Onde é que você vai ? Ninguém sai.


E a história prossegue, com desdobramentos absurdos.
Taí, um livro que me faz rir.
Obrigada por me lembrarem dele!


Também estão brincando:


Eu sou a Graúna
Pimenta com Limão
Mulher Alternativa
Pergunte ao Pixel
A Estrada Anil
Nem tão óbvio assim
Livros e opiniões
Mayroses

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Qual é o seu armário?

Sábado, dia 27 de agosto, aconteceu em BH a 7ª Caminhada pela Visibilidade Lésbica.
Desde algum tempo, venho participanto de diversos movimentos de luta contra a homofobia e a lesbofobia, e não poderia faltar à caminhada.
Chegamos na Praça 7 por volta das 14 horas, e ainda havia poucas pessoas na praça. 
Faixas e cartazes, em frente ao McDonalds, no mesmo dia do "McLanche Feliz" (feliz pra quem, cara-pálida?) e as pessoas passando, em uma tarde de sábado, voltando do trabalho, ou das compras ou indo para o templo do consumo do shopping Cidade... 
Reações diversas.

A caminhada começou por volta das quatro e meia da tarde, e foi curta, mas muito válida!

Mas não é sobre a caminhada que decidi escrever hoje.
No domingo, é dia do almoço em família. 
Fui para a casa dos meus pais, onde ajudei a fazer o almoço, e enquanto isso, tomava uma cerveja com minha mãe, na cozinha.
Ela me perguntou sobre o sábado, o que eu havia feito, essas coisas.
E eu disse que fora a uma caminhada.
Ela imediatamente perguntou se era dessas coisas de gays que eu ando frequentando (palavras dela). 
E eu disse que não era de gays, era de lésbicas, e sim, foi uma caminhada dessas.
Ela me olhou e disse:  "Minha filha, pode parar com isso!" 
Com um tom de preocupação e, não sei, advertência?
Talvez nem ela saiba o que desejava expressar com aquelas palavras.



Respondi para ela:
"Mãe, eu não sou lésbica. Mas tenho amigas que são, e uma delas, uma menina incrível, advogada, inteligentíssima, superbacana, esta passando por uma situação tão triste... os pais da namorada, que tem vinte anos, descobriram sobre o namoro e as proibiram de se ver. Imagina que tristeza??"

Minha mãe não é uma pessoa ruim. É conservadora, de família criada nos dogmas do catolicismo e naquilo "que os outros irão pensar-dizer". 
Depois da minha resposta, ela concordou que é um absurdo as pessoas serem proibidas de viverem juntas, de namorarem, de se amarem e demonstrarem isso. 
Mas ao mesmo tempo, quando vê os casais homossexuais nas novelas, ela ainda acha um absurdo, acha que "incentiva". Todos os dias que falamos sobre o tema, eu tento fazer com que ela supere o que lhe foi incultido durante décadas, pela família e pela igreja, e passe a sentir empatia.






Me pego pensando: nunca é cedo demais para aprender que meninas usam rosa e meninos usam azul, que meninas brincam de boneca e tem que ser magras e delicadas, e meninos jogam bola e brigam, e tem que ser fortes e atléticos.
Nunca é cedo demais para reproduzir sem perceber os conceitos culturais que foram construídos e que tanto afetam tanto as crianças como os adultos.
Por que discutir a diferença e o respeito pela diversidade seria "precoce" em jovens a partir de 14 anos, que seria o foco da campanha anti-homofobia?

Lésbicas sofrem preconceito todos os dias.
São visíveis somente para o fetiche do prazer masculino.
Campanhas com duas mulheres não empoderam as lésbicas, mas apenas "deleitam" os olhares masculinos, usando apenas de um padrão estético que oprime todas as mulheres, homossexuais ou não.
 


Eu não sei o que é ser lésbica, assim como não sei o que é ser negra. Mas sou capaz de sentir a dor do Outro.
Sou capaz de reconhecer e aceitar a diferença. 
E sou capaz dessa empatia, mesmo tendo sido criada em uma família tradicional.
Então, em certos momentos, perco totalmente a fé na humanidade.
É muita maldade, muita cegueira voluntária, muita estupidez.
Mas em outros, ainda consigo ver que existem pessoas que fazem o bem, pessoas que reconhecem a existência do Outro como semelhante, como iguais, como irmãos.

E nesses momentos, penso em que é que realmente está no armário embolorado fedendo naftalina...



Armário - Zeca Baleiro
Lembro quando você me falou,
dentro do armário,
só tem bolor e naftalina.
Vem já pra fora, meu bem,
que só aqui é que tem,
calor e adrenalina.

Voltei pra casa,
parei na porta,
pensei um pouco...
Nem morta!

Não posso, não posso,
já falei que eu não posso,
não é que eu não queira,
mas é tão difícil pra mim.

É claro que eu quero,
quero mais que tudo,
mas sinto tanto medo,
um medo absurdo!

Medo dos vizinhos,
medo da mommy,
medo do daddy,
e do meu irmão,
que já foi skinhead.

Oh, meu amor,
ninguém me faz tão feliz,
ninguém me fez tanto bem...

Mas já que eu não posso sair do armário,
peço que você entre no armário também...

Não posso, não posso,
já falei que eu não posso,
não é que eu não queira,
mas é tão difícil pra mim.

É claro que eu quero,
quero mais que tudo,
mas sinto tanto medo,
um medo absurdo!

Medo dos vizinhos,
medo da mommy,
medo do daddy,
e do meu irmão,
Que já foi skinhead.

Oh, meu amor,
você é tudo de bom,
ninguém me fez tanto bem...

Mas já que eu não posso sair do armário,
Peço que você entre no armário também...
 
Este singelo post foi escrito para a Blogagem Coletiva da Visibilidade Lésbica, convocada pelas Blogueiras Feministas.

Dê uma olhada lá, nas postagens das demais blogueiras participantes, e blogueiros também.
Mas não deixe de ler os posts da Inquietudine. São um alento, apesar da revolta que provoca ver uma pessoa incrível ter que enfrentar tantos obstáculos simplesmente para amar... 
Já pensou nos seus privilégios, hoje??

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Um céu cheio de préas...


Dia 4 – the first book that make you cry ...

Antes de começar a falar sobre o livro, um aviso e uma declaração:  Eu sou chorona.
Sou manteiga derretida mesmo. Choro, literalmente, em comercial de margarina. Ok, talvez não de margarina, mas confesso que choro com comerciais, daqueles tipo da Nestlé, de família feliz, com bichinhos e vovozinhas, e bebezinhos rechonchudos.

Chorei em “O Rei Leão”, chorei em “Avatar”, chorei em Harry Potter (nos últimos, né, gente...) e chorei em “Marley e Eu”. Chorei de raiva em “A Zona do Crime”, em “Carandiru” e em “Tropa de Elite” – juro que chorei!

E sou chorona desde criança. Minha avó dizia que minha facilidade para verter lágrimas me faria ser atriz de novela. Ela queria dizer que eu chorava por qualquer bobagem, e chorava mesmo: Chorava quando ela matava as galinhas para fazer o almoço de domingo, chorava quando os gatinhos  que eu pegava na rua não sobreviviam. Para ela, criada na roça, matando porcos e dando à luz em casa, toando gado e batendo a manteiga, bichinhos eram luxos, momices. Só mais velha ela se apegou a um gato, o Chico, que virou seu companheiro inseparável.

O primeiro livro que me fez chorar? Não me lembro, mas acho que foi “Vidas secas”.
Só de lembrar da Baleia meus olhos ficam rasos.
Baleia, a pobre cadela dos pobres retirantes.
Pensar em Fabiano, o sertanejo, bruto, se emocionando ao ter que sacrificar a cadela... pootz.
Então, pode até ser que tenha sido outro, mas o que me lembro mesmo de ter chorado de soluçar, foi esse. Fabiano, as crianças, Siá Vitória...
 E Baleia.
Vejo Baleia em cada cão magro e sarnento abandonado na rua, que eu não consigo resgatar.
Vejo Baleia em cada criança vendendo balas no sinal. Em cada miserável puxando um carrinho de catador de papel.
Vejo Baleia em mim.
“A cachorra Baleia estava para morrer. Tinha emagrecido, o pêlo caíra em vários pontos, as costelas avultavam num fundo róseo, onde manchas escuras supuravam e sangravam, cobertas de moscas. As chagas da boca e a inchação dos beiços dificultavam-lhe a comida e a bebida. (...) Então Fabiano resolveu matá-la. Foi buscar a espingarda de pederneira, lixou-a, limpou-a com o saca-trapo e fez tenção de carregá-la bem para a cachorra não sofrer muito. Sinhá Vitória fechou-se na camarinha, rebocando os meninos assustados, que adivinhavam desgraça e não se cansavam de repetir a mesma pergunta: – Vão bulir com a Baleia? (...) Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de preás. E lamberia as mãos de Fabiano, um Fabiano enorme.”

É de chorar ou não?

A Lubisborboleta, a NiPimenta, a MariAlternativa e a Ritanil estão também no meme, que começou com a Tina Lopes, e ganhou hoje a adesão da Mayara.
Vem vc também, está delicioso!