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sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Bolo de maça de feminista!

Então, hoje é sexta-feira, de muito calor, insuportável mesmo. 


Eu e minhas duas princesas - Laika e Pagu

Mafalda já está bem soltinha, ganhou quase dois quilos em uma semana, foi só passar a dar ração de qualidade (Royal Canin), e as costelinhas dela já estão bem cobertinhas, o pelo está mais sedoso, e ela está mais espertinha.
Então, não há nada de interessante passando na tv, não estou com vontade de ver nenhum filme, e apesar do calor que me dá muita preguiça, estou com mais preguiça de ficar sem fazer nada.


Mafaldinha, olhem como está crescida!

Resolvi então abrir o meu Reader, e vi que a Ana, do La Cucinetta, fez um bolo de ameixas, avelãs e marzipan, que me deixou com água na boca. As receitas dela são sempre deliciosas, apesar de algumas combinações de saladas que meu paladar pouco educado, de comedora de junk food, não consegue conceber.

Laika, a lider da matilha

Daí que diante da receita do La Cucinetta, resolvi olhar o que tinha na cozinha, que desse para fazer um bolo...
Ovos... ok (infelizmente, não são orgânicos... mas vão ter que servir)
Farinha... ok
Açucar... ahn... só tem refinado... vou adptar...
Óleo... ok
Baunilha... ops... não tem
Ameixa... não tem!
Avelãs... noops!

Bem, mas tenho maças e bananas! Vai ter que servir.
E lá vamos nós, tentar fazer um bolo diferente, para variar do meu eterno vício por chocolate.

Pagu, a dona da casa e dos que nela habitam, claro!
Deixei as coisas na cozinha, para ficar mais "temperatura ambiente", e vim procurar dicas para não ferrar com uma receita normal de bolo, que vai levar frutas.
Já vi que a maçã tem muita água, então posso diminuir no leite.
Espero que agora que estão na pia há meia hora, a manteiga não tenha derretido e os ovos, cozido no calor de forno que faz em Contagem hoje!


Enquanto eu decidia qual receita fazer, diante da precariedade dos ingredientes aqui de casa... (hoje era dia de mercado, eu fiquei de ir, e fui pro salão... acabou o açucar e o leite, é bom esse bolo dar certo!!!!) fui e voltei, da cozinha para o pc, umas dez vezes. Em uma dessas, quando me levantei do computador, cadê meu chinelo? Mafalda, a novata, havia pego minha havaiana e levado para o puff.

Parando de enrolação, eis a receita, e suas adaptações:

Receita original (via Ana Elisa, do lindo La Cucinetta)

APPLE CAKE WITH CINNAMON SUGAR TOPPING
(ligeiramente adaptado do livro More From Magnolia, de Allysa Torey)
Tempo de preparo: 20 min + 1 hora de forno
Rendimento: 1 bolo de uns 23cm

Ingredientes:
  • 2 xic. farinha de trigo
  • 2 colh. (chá) fermento químico em pó
  • 1 colh. (chá) sal
  • 2/3 xic. óleo vegetal (de preferência canola)
  • 1 xic. açúcar cristal orgânico
  • 2 ovos grandes, orgânicos, em temperatura ambiente
  • 1 xic. leite
  • 1 colh. (chá) essência de baunilha
  • 3 maçãs grandes (aprox. 550g), descascadas e fatiadas
  • 1/2 xic. açúcar cristal orgânico misturado a 1 colh. (chá) canela em pó

Preparo:
  1. Pré-aqueça o forno a 160ºC. Unte e enfarinhe uma forma de furo no meio de 23cm de diâmetro.
  2. Em uma tigela pequena, peneire a farinha, o fermento e o sal. Reserve. 
  3. Na tigela da batedeira, em velocidade média, bata o óleo, os ovos e o açúcar até que fique espesso e claro, cerca de 3 minutos. 
  4. Junte a farinha em 3 partes, alterando com o leite e a baunilha, batendo apenas até que pareça bem misturado. 
  5. Em uma tigela, misture as fatias de maçã com metade da mistura de canela e açúcar, até recobri-las bem. Junte metade das maçãs à massa, misture com uma espátula e espalhe na forma. Disponha o restante das maçãs sobre a massa e polvilhe com o resto do açúcar e canela.
  6. Leve ao forno por 60-70 minutos, ou até que um palito inserido no meio saia limpo. Tire do forno e deixe esfriar na forma por 1 hora. Então desenforme, e deixe terminar de esfriar sobre uma grade.

Agora, as minhas adaptações:

Não tinha açucar cristal orgânico. Coloquei mel da roça, pelo menos são de abelhinhas silvestres!
Não tinha o óleo de canola, coloquei de milho mesmo.
Não tinha baunilha, não coloquei nada.

O resto, eu segui a receita original.
Estou esperando assar.

Vocês podem estar se perguntando, porque eu decidi falar de receita de bolo, em vez de comentar as crises pelas quais a segurança pública está passando, em MG, no RJ, em SP...

Primeiro: não sou especialista em segurança pública, apenas sou uma profissional, que trabalha na ponta da linha, e dou muitos palpites, de atrevida e ousada que sou. E digo que sou com orgulho, sou mesmo!

Segundo: fiquei duas semanas afastada do trabalho, e se eu ficar pensando em todos os problemas da segurança pública, vou acabar e pedindo leite e começar a tomar rivotril ou coisa que o valha.

Terceiro: é sexta-feira, está um calor danado, quero mais é assar meu bolo, e deixá-lo pronto para um café da manhã gostoso e diferente amanhã. De repente, até ganho (ou levo) um café na cama?

Quarto: por ser feminista, tem gente que acredita que nós somos peludas, não cozinhamos e mantemos nossos homens (quando os temos, claro...) amarrados no pé da mesa, escravizados, enquanto saímos por aí, radicalmente querendo... querendo o que? Afinal, já não podemos tudo? Querendo liberdade, querendo justiça, querendo tratamento digno, querendo o fim do machismo que mata, querendo o direito de ser diferente e ser igual... E fazer bolo de maça com mel e canela, contra a receita, dentro da receita, como der na telha!!

Ah, e muito importante: tomar cerveja depois!!!


P.S.: Aqui vai a foto do meu bolo de maçã com canela, que levou mel e está cheirando deliciosamente!!! Valeu, La Cucinetta, pela inpiração!!!
Bolo de maçã com canela

Cresceu, ficou bem fofo!

  E valeu a minha mãe, minha tia Marilene, minha avó Maria querida,  que me ensinaram a cozinhar, a ler, a escrever, a pensar, e a não me conformar!

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Girls that rock!!! - Bad Reputation - Joan Jett

I don't give a damn 'bout my reputation
You're living in the past it's a new generation
A girl can do what she wants to do and that's
What I'm gonna do
An' I don't give a damn ' bout my bad reputation

The Runaways

Oh no not me

An' I don't give a damn 'bout my reputation
Never said I wanted to improve my station
An' I'm only doin' good
When I'm havin' fun
An' I don't have to please no one
An' I don't give a damn
'Bout my bad reputation

Oh no, not me
Oh no, not me

I don't give a damn
'Bout my reputation
I've never been afraid of any deviation
An' I don't really care
If ya think I'm strange
I ain't gonna change
An' I'm never gonna care
'Bout my bad reputation

Joan Jett



Oh no, not me
Oh no, not me

Pedal boys!

An' I don't give a damn
'Bout my reputation
The world's in trouble
There's no communication
An' everyone can say
What they want to say
It never gets better anyway
So why should I care
'Bout a bad reputation anyway
Oh no, not me
Oh no, not me

I don't give a damn 'bout my bad reputation
You're living in the past
It's a new generation
An' I only feel good
When I got no pain
An' that's how I'm gonna stay
An' I don't give a damn
'Bout my bad reputation

Oh no, not me
Oh no, not
Not me, not me

Joan Jett


Adoro!!!!!!!!

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Delegadas na novela, delegadas na vida real...


Há umas duas semanas comecei a escrever este post, mas como o Curso de Promotor de Polícia Comunitária começou, não tive tempo de terminar, e só agora estou encerrando a edição.

A idéia surgiu de uma conversa com outras três delegadas da PCMG, Dras. Carolina Bechelany, Daniela Aguiar e Juliana Hissanaga, e comentando sobre algumas situações cotidianas (e outras nem tanto...) falamos sobre a imagem dos delegados e delegadas na ficção televisiva brasileira.

E uma delas, não lembro qual (rs) falou que assistiu o primeiro episódio, e que a delegada federal interpretada pela Luana Piovanni comparece a um local de homicídio, e é a bambambam do pedaço, enquanto o delegado da civil (não sei se do Rio ou de SP) é um corrupto, mal ajambrado... estereotipado da pior forma (pesquisando imagens para ilustrar, descobri que o Maurício Mattar é quem faz o delegado).

E as mulheres?
Talvez porque as mulheres são mais novas nas Polícias, não temos muito aquela imagem estereotipada dos homens policiais civis. As vezes ainda escutamos, em tom de surpresa: "nossa, mas você é tão feminina, não parece policia" ( e olha, nem sei se sou tão delicada assim, tenho "cara fechada", não sou miudinha, pelo contrário, rs) , ou seja, a expectativa é que sejamos versões masculinas do Capitão Nascimento, sei lá...

Temos tido sorte (pelo menos em termo de aparência)... vejam as últimas delegadas da ficção:

Luana Piovani - Delegada Gabriela - Na forma da lei

Raquel Nunes - Márcia - Bela, a Feia

Só que não consigo ver esse festival de beleza simplesmente como algo bom, sabe.
Não deixa de ser um outro estereotipo que se cria, com o tipo: "ah, me prende, me algema!"
É uma especie de fetiche, sei lá.

Ser delegada, além de todos os desafios relativos ao crime, à desigualdade social, à violência, dos quais já falei um pouco aqui no blog, tem esse outro lado: ter que chefiar um grupo formado majoritariamente por homens, a maioria deles (por enquanto) mais velhos do que eu, mais antigos na profissão, e com seus preconceitos, seus hábitos, sua própria cultura.

Rita Guedes, em Caminho das Indias

Cris Viana, a delegada Tita, de Tempos Modernos, novela da Globo

Francisca Queiroz, A lei e o crime

Costumo comentar que em uma ocasião, após lidar com uma situação complexa, um policial antigo se aproximou e me falou: "Poxa, Doutora, com todo respeito, a senhora tem corpo de mulher, mas tem cabeça de homem (pensa como homem, algo assim)."
E eu não me ofendi, porque imediatamente entendi que ele estava querendo me elogiar.
Claro que eu gostaria que ele pensasse em uma forma diferente, mas, puxa, como eu vou conseguir mudar a forma de pensar de um homem que entrou na Polícia quando eu estava nas fraldas (exagero... ), e convive há todo esse tempo com "the crap" que em quatro anos está me estressando?

Zilka Sallaberry - Delegada Donana Medrado, O bem-amado

Eu tento mudar a cabeça deles, sim e muitos percebem. Mas eu não sou operacional (não saio muito para a rua, fico mais no gabinete, até pelas especificidades da minha área de atuação - Crimes de trânsito, e só recentemente, furtos e roubos de veículos), e sei que muitos acham que sou menos policia que eles, mas pelo menos também sei que não pensam assim só porque sou mulher e sou ativista de Direitos Humanos. Pensam assim de qualquer delegado que não sai pra rua.

Se eu quero ir para rua, armada e de colete? Sei lá. As vezes quero, as vezes acho que cumpro bem meu papel mais estratégico, não precisaria ir nos locais, mas tudo pode mudar.

Só para encerrar este lance:
A Dra. Juliana Hissanaga, de BH, titular da Delegacia de Polícia ali da Av. Pedro II, contou de um episódio em que saiu correndo, de saia lápis, meia fina e salto agulha, com a pistola .40 em punho, atrás de um assaltante, dando apoio para o Agente que presenciou o assalto.
Imaginem a cena: uma mulher jovem, bonita, bem arrumada, nissei, de um metro e meio de altura (desculpa, Ju!), correndo descalça atrás de um cara de 1,90 de altura! Descalça, porque como ela mesma disse: "quando comecei a correr pela rua, e vi que não dava com aquele salto, chutei o scarpin e corri descalça mesmo! No dia seguinte, todo mundo das lojas próximas perguntava para os Agentes quem era a "japonesa correndo descalça com a arma na mão?".

E pegaram um dos assaltantes, que foi autuado em flagrante.

Parece ficção? Pois é, vida real...

(não tem foto da Ju, mas a primeira, lá no alto, sou eu, com a .40...)

Outra hora quero falar sobre as diferenças entre Polícia Civil e Polícia Militar, mas deixa pra depois...

terça-feira, 4 de maio de 2010

Culpar as vítimas, uma estratégia infame

Recebi este e-mail na época em que ocorreram os fatos, e escrevi o texto abaixo, que compartilhei com alguns amigos, em grupos de discussão. Infelizmente, o assunto ainda é atual.

Em janeiro deste ano, uma cabeleireira foi morta em seu local de trabalho, pelo ex-marido, contra quem vigorava uma medida protetiva, de restrição de aproximação; Ele não só descumpriu a medida, como entrou, armado, no salão, e atirou duas vezes contra a ex-mulher. E houve quem também culpasse a vítima...

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Subject: Fw: Eloá Parecia ter 15 anos?

Eloá Parecia ter 15 anos?

Sei que nada justifica um crime como aquele, todavia, a exposição do corpo,
como vem acontecendo com essas jovens, de certa forma, influencia uma
juventude despreparada e alienada! Será que a mamãe e o papai de Eloá, sabia
da existência das fotos? Procurava se aproximar ao máximo de seus filhos?
Dava as devidas orientações?

Vamos rever nossos conceitos, esta inversão de valores, está nos levando ao
fundo do poço.”


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Abri meu e-mail ao chegar da aula, e recebi a mensagem acima, com um anexo incluindo uma montagem, no Powerpoint, de fotos de adolescentes em poses “sensuais”, sendo que uma delas supostamente é a adolescente Eloá, vítima do crime de homicídio, perpetrado pelo ex-namorado, na cidade de Santo André-SP.

Não devia ter aberto.

É uma mensagem que me lembra aquela, dos três rapazes entregues pelo Exército aos traficantes da facção rival, e que foram mortos, obviamente.

Trata-se claramente de uma tentativa de culpar a vítima.

Os três rapazes, porque tinham passagens pela polícia, e eram investigados pela prática de crimes graves, foram ironicamente chamados anjinhos, e a barbárie cometida foi justificada.

No caso da adolescente, a mensagem não tem o mesmo tom agressivo, até tenta um suposto resgate de valores. No entanto, ali mesmo está a justificativa da barbárie: era uma menina sem valores, sem família decente, e provocava o rapaz com fotos “sexies”.

Realmente, nas fotos aparecem imagens de jovens com biquínis, roupas íntimas ou bem curtas e decotadas, fazendo poses de revista masculina. Percebe-se que se trata de adolescentes, e que os locais onde foram feitas as poses eram locais simples, sem as superproduções das revistas ditas ‘masculinas’.

Há pouco tempo, nos EUA, uma cantora e atriz adolescente, filha de cantores de sucesso, e ela mesma estrela de um seriado de sucesso, causou choque na puritana sociedade norte-americana ao posar, não para uma revista masculina, mas para a Vanity Fair, uma publicação centenária de variedades. Não sei definir um paralelo no Brasil, seria uma mistura de revista de cinema, moda, entrevistas, política... A fotógrafa foi a famosa Annie Leibowitz, e a modelo a cantora Miley Cyrus.


O bafafá? A modelo posou de maquiagem borrada, enrolada em um lençol, sugerindo nudez e a prática de atividades pouco condizentes com sua idade.

Choque? Diante de uma sociedade que coloca as mulheres como objetos de desejo, que cria produtos de mídia como o seriado Gossip Girl (para quem não conhece, um seriado que é o chamado “Sex and the city” para adolescentes, baseado na obra de uma suposta socialite nova-iorquina, que retrata o cotidiano de jovens endinheirados e ociosos do Upper East Side de Manhattan)? Que glamouriza a juventude sem atitude, consumista, ociosa, alienada e irresponsável?

No Brasil não ficamos atrás: quem não conhece (ou ouviu falar) da novelinha Malhação? Transmitida no horário da tarde, glamouriza os belos corpos das jovens, e retrata situações supostamente cotidianas dos jovens brasileiros. Confesso que há anos não assisto ( e confesso também que assistia Gossip Girl...), então não sei como está atualmente, já que na minha época, Malhação realmente se passava em uma academia... quantos brasileiros passam o dia na academia? Nem de ginástica nem na outra...

Bem, e os sonhos das brasileiras, atualmente? Não é ser Miss... é ser “the next top model”, e aparecer seminua, fazendo poses nada normais, na TV a cabo, sendo esculachada pelos ‘profissionais da moda’! É ser a próxima BBB, a próxima ex-miss, ex-BBB, modelo e atriz. Ou ser “mulher-fruta”.

Culpar a vítima por repetir esses padrões é muito simples. Culpar os pais por não vigiarem a mocinha indefesa, não menos simples. Culpar essa inversão de valores, simplérrimo!

Pois morro de medo se respostas simples. Em situações físicas, vá lá, como aquela do geólogo que ajudou a tirar o cisterneiro do fundo do poço, com uma solução simples. Nesse caso a navalha de Occam funciona, sim.

Mas quando se fala de relações sociais, não acredito não.

A intenção de quem, sabe-se lá porque, perdeu tempo procurando fotos da vítima, fazendo uma montagem do PowerPoint e remetendo para toda a lista de contatos pode ser “boa”, mas derrapou feio...

A verdade é que a tragédia aconteceu porque o autor se sentia “dono” da namorada. Se foi ele quem terminou, como disseram na imprensa, e depois quis voltar, que tinha ela que recusar? Afinal, ele era um amor, tão educado!

Pois me parece que ele sentia pela namorada o mesmo que sinto por um objeto inanimado qualquer.

É, porque pela minha gata de estimação eu tenho o cuidado de não achar que é toda hora que quer colo, ou carinho, ou que ela está 24 horas por dia à minha disposição, sem considerar quaisquer outras possibilidades.

Apenas com uma chave, ou um papel usado, ou uma caneta qualquer eu teria o mesmo descuido, de achar que posso descartar e depois recuperar, e o objeto, como coisa que é, não reage, não responde, não tem vontade ou desejos próprios.

Mas o autor foi criado nessa sociedade.

E o autor era um bom rapaz....

Foi criado vendo as meninas de 12 anos se vestirem como mulheres de 25.

Foi criado vendo novelas onde ainda se reproduz o estereotipo da mulher-objeto.

Foi criado vendo TV, com comerciais de desodorantes masculinos que mostram mulheres seminuas como salmões-fêmeas na piracema, enfrentado todos os obstáculos para alcançar o macho. Só que as fêmeas do salmão já foram fertilizadas, neném, e estão correndo pela sobrevivência da espécie. E na natureza, são os machos quem competem pela atenção da fêmea. Mas não pega bem, né? Não vai vender desodorante...

Não, o autor não era um bom rapaz.

Porque se fosse, não teria feito o que fez.

A mídia não é culpada de tudo. A mídia reproduz nossa cultura.

E nos achamos melhores que os somalis que apedrejaram até a morte uma adolescente de 13 anos que foi estuprada e então acusada de desonrar a família.

Culpam a vítima... na Somália dominada pelos senhores da guerra que armam meninos de 8 anos com metralhadoras.

E aqui, na terra do futebol e da mulata...

Adolescentes de classe média agridem uma trabalhadora, e se justificam porque “pensaram que era uma prostituta”.

Esse é o mesmo pensamento que enseja a divulgação dessas fotos, sejam ou não da vítima.

O que faz algum homem pensar que qualquer mulher, seja ela professora, doméstica, prostituta ou médica, pode ser agredida? Que qualquer ato de qualquer mulher é uma provocação aos incontroláveis instintos sexuais masculinos?

Não culpem a vítima por ter 15 anos e estar deslumbrada com um namorado mais velho.

Essa é a lógica do sistema. Não seja hipócrita. Talvez, se fosse sua filha, e você que está lendo isso for homem, você não gostasse – afinal, você é homem, e sabe o que passa na cabeça dos homens... e você, mulher, sabe o que se passa na cabeça das mulheres!

Eloá parecia ter 15 anos? Sim, parecia e tinha. Reproduzia, consciente e inconscientemente, os padrões esperados pela sociedade onde vive.

Ela estudava. Talvez, se tivesse sobrevivido, chegasse até a faculdade, quem sabe, e parasse de achar que seu corpo era tudo que tinha. Ou não.

Pois o padrão é tão totalizante que não admite questionamentos, e atinge mulheres de todas as faixas, etárias, sociais, raciais, econômicas, culturais...

E o autor... Ele tem 22 anos, ele tem 55 anos, ele tem 30 anos. Ele é branco, negro, asiático, brasileiro, somali, americano, argentino e japonês. Ele é analfabeto, semi-analfabeto, graduado, mestre e doutor. Ele é pobre, rico, miserável e remediado. Ele é feio, bonito, magro, gordo, bem vestido, mal-ajambrado. Ele é todos e qualquer um.

Nenhum de nós é inocente.

Nenhuma de nós.

Continuamos a criar nossos filhos, filhos da geração Xou da Xuxa, de forma desigual, reproduzindo a desigualdade e a inferioridade que geram agressões como a de Santo André, como a de Contagem, a de Belo Horizonte, a do Rio de Janeiro, a de Nova Iorque, Londres, Paris, Lisboa, ou alguma cidade obscura na Somália, na Tunísia ou no Afeganistão: nessa seara, o talibã é aqui.

Nenhum de nós é inocente. Nem a vítima. Mas não a culpem, porque sim, ela só tinha 15 anos.